O Jaguar

O Jaguar
Ted Hughes
Trad. Sérgio Alcides
Macacos se espreguiçam cultuando pulgas ao sol.
Guincham os papagaios, como ardendo, ou gingam
Feito putas a fim de atenção e amendoim.
Fatigados pela indolência, o tigre e o leão
Jazem imóveis como o sol. O rolo da jiboia
Fossiliza-se. Jaula após jaula está vazia, ou
Fede ao palheiro onde tresanda um dorminhoco.
Para pintar num quarto de criança a cena é boa.
Mas quem percorre a ala com os outros atinge
A jaula onde uma multidão vem ver, mesmerizada
Como criança sonhando, um jaguar furioso a girar
Pelo breu da prisão que a broca do seu olhar punge
Num curto pavio feroz. Sem fastio –
Os olhos contentes no seu fogo cegante,
Os ouvidos ao surdo tambor do seu sangue –
Revolta-se ante as grades, mas para ele não há jaula
Mais do que para o visionário existe sua cela:
É seu passo o sertão que a liberdade tem defronte:
O mundo rola embaixo do ímpeto de suas patas.
No chão de sua jaula se derramam os horizontes.
TED HUGHES (1930–1998)
nasceu em Mytholmroyd, Inglaterra. Escreveu vários livros de
poemas, entre eles, The Hawk in the Rain, Wolfwatching e
Selected Poems 1957–1981. Em 1984 recebeu o título de Poeta
Laureado do Reino Unido e em 1998 o Whitebread Prize.
SÉRGIO ALCIDES
é poeta, tradutor e professor de Literatura Brasileira na Faculdade
de Letras da UFMG. Publicou, entre outros, os livros O ar das
cidades. Poemas, 1996–2000 e Estes penhascos. Cláudio Manuel
da Costa e a paisagem das Minas (1753–1773).
s. The Hawk in the Rain (1957).
Trad. de Sérgio Alcides
link: http://www.cultura.mg.gov.br/arquivos/SuplementoLiterario/File/1332.pdf

