Vivendo a Palestina*
Vivendo a Palestina*
Por Arturo Hartmann
Porto Alegre, Hotel Continental, salão de eventos, por volta das 22 horas. Começava ali uma das mais eloqüentes descrições da Palestina. Ali ela estava livre da ocupação, livre das amarras que a impedem de existir. Ela se fez diante dos olhos de quem tivesse olhos para vê-la, ali mesmo, em um pedaço do solo do país que aceita todos para seu carnaval de desigualdades.
A dabka árabe, feita por pés palestinos nascidos no Brasil, inundou a sala. E ali, sem palavras, através do ritmo que fazia tudo mais ficar mudo e dos movimentos que faziam todo o resto desaparecer, a Palestina se fez. Ali estava também a dualidade que fragmenta sua identidade. A ocupação e a resistência, o não deixar viver e o viver, colidem a todo o momento, alimentam aquilo que faz com que a Palestina jamais desapareça.
A quilômetros daquele lugar, às margens do Rio Guaiba, em Porto Alegre, a Palestina ainda era impedida de existir e, no entanto, existia. A vibrante demonstração de uma cultura que não foi exterminada alimenta a esperança de que ela possa ter novamente seu lugar, pois ela tem origem, solo, terra, espaço definido e irrevogável.
O Brasil ofereceu uma pequeníssima parte de seu espaço para que, por momentos, não fosse mais brasileiro. A Palestina que se mostrou naquela dança foi caótica, harmônica, vibrante, coletiva, individual, idosa, nova, vibrante, séria, irônica, masculina, feminina, infantil. Os rostos tinham raiva, alegria, êxtase.
O Congresso Palestino, para além de suas resoluções de ação política, foi um encontro de histórias que não permitem a esses palestinos esquecer quem são. O cotidiano é doloroso e sua realidade está recheada: famílias, primos, irmãs, ocupação, checkpoints, lágrimas, fronteiras, passe, passaporte, morte, exílio, 48, 67, Oslo, Muro, líderes, grupos, milícias, depressão, Jordânia, Aman, volta, Haifa, Gaza, política, Estado, humilhação, Intifada, israelenses, judeus, árabes, Líbano, ativismo, Jerusalém, Jenin, esperança, desistência, resistência, terra, água, oliveiras, abraços, braços, danças, dentes, ossos, força, prisões, mulheres, filhos, armas, paz, socorro, ajuda, cooperação, boicote, ausência, diáspora. Transferência.
Silêncio. Alguns recusam-se a falar, dar entrevistas. Viver em uma Israel judaica que olha com incômodo para os árabes exige silêncio. Senhores de 48 têm suas vidas controladas e, por qualquer depoimento contra o Estado, não voltam para suas casas. Não voltam para suas vidas. A entrada na Palestina ou em Israel está associada ao silêncio. Prova de que ainda existe uma Palestina dentro de Israel.
Barulho. Final de noite, domingo, por volta das 21h. O desconforto de saber que se faz parte de uma região ocupada exige barulho. Uma jovem não se contentou com um adeus. Seu sotaque é gaúcho, mas o rosto é árabe. O folclore que mostrou a Palestina tinha consciência. “Nós fazemos porque acreditamos, não queremos deixar a causa morrer. Isso não vai acontecer conosco”. Ela não tinha mais do que 16 anos.
Um dia, eles voltarão.
Arturo Hartmann, jornalista enviado a Porto Alegre para o 9º Congresso das Comunidades e Entidades Árabe-Palestino-Brasileiras
* “Vivendo a palestina” foi um dos projetos apresentados durante o Congresso. Seu objetivo é estreitar e fortalecer os elos do povo palestino na diáspora com o povo na Palestina. Uma tentativa para que se mantenham vivas cultura, história e identidade nacional do povo palestino.
Por Arturo Hartmann
Porto Alegre, Hotel Continental, salão de eventos, por volta das 22 horas. Começava ali uma das mais eloqüentes descrições da Palestina. Ali ela estava livre da ocupação, livre das amarras que a impedem de existir. Ela se fez diante dos olhos de quem tivesse olhos para vê-la, ali mesmo, em um pedaço do solo do país que aceita todos para seu carnaval de desigualdades.
A dabka árabe, feita por pés palestinos nascidos no Brasil, inundou a sala. E ali, sem palavras, através do ritmo que fazia tudo mais ficar mudo e dos movimentos que faziam todo o resto desaparecer, a Palestina se fez. Ali estava também a dualidade que fragmenta sua identidade. A ocupação e a resistência, o não deixar viver e o viver, colidem a todo o momento, alimentam aquilo que faz com que a Palestina jamais desapareça.
A quilômetros daquele lugar, às margens do Rio Guaiba, em Porto Alegre, a Palestina ainda era impedida de existir e, no entanto, existia. A vibrante demonstração de uma cultura que não foi exterminada alimenta a esperança de que ela possa ter novamente seu lugar, pois ela tem origem, solo, terra, espaço definido e irrevogável.
O Brasil ofereceu uma pequeníssima parte de seu espaço para que, por momentos, não fosse mais brasileiro. A Palestina que se mostrou naquela dança foi caótica, harmônica, vibrante, coletiva, individual, idosa, nova, vibrante, séria, irônica, masculina, feminina, infantil. Os rostos tinham raiva, alegria, êxtase.
O Congresso Palestino, para além de suas resoluções de ação política, foi um encontro de histórias que não permitem a esses palestinos esquecer quem são. O cotidiano é doloroso e sua realidade está recheada: famílias, primos, irmãs, ocupação, checkpoints, lágrimas, fronteiras, passe, passaporte, morte, exílio, 48, 67, Oslo, Muro, líderes, grupos, milícias, depressão, Jordânia, Aman, volta, Haifa, Gaza, política, Estado, humilhação, Intifada, israelenses, judeus, árabes, Líbano, ativismo, Jerusalém, Jenin, esperança, desistência, resistência, terra, água, oliveiras, abraços, braços, danças, dentes, ossos, força, prisões, mulheres, filhos, armas, paz, socorro, ajuda, cooperação, boicote, ausência, diáspora. Transferência.
Silêncio. Alguns recusam-se a falar, dar entrevistas. Viver em uma Israel judaica que olha com incômodo para os árabes exige silêncio. Senhores de 48 têm suas vidas controladas e, por qualquer depoimento contra o Estado, não voltam para suas casas. Não voltam para suas vidas. A entrada na Palestina ou em Israel está associada ao silêncio. Prova de que ainda existe uma Palestina dentro de Israel.
Barulho. Final de noite, domingo, por volta das 21h. O desconforto de saber que se faz parte de uma região ocupada exige barulho. Uma jovem não se contentou com um adeus. Seu sotaque é gaúcho, mas o rosto é árabe. O folclore que mostrou a Palestina tinha consciência. “Nós fazemos porque acreditamos, não queremos deixar a causa morrer. Isso não vai acontecer conosco”. Ela não tinha mais do que 16 anos.
Um dia, eles voltarão.
Arturo Hartmann, jornalista enviado a Porto Alegre para o 9º Congresso das Comunidades e Entidades Árabe-Palestino-Brasileiras
* “Vivendo a palestina” foi um dos projetos apresentados durante o Congresso. Seu objetivo é estreitar e fortalecer os elos do povo palestino na diáspora com o povo na Palestina. Uma tentativa para que se mantenham vivas cultura, história e identidade nacional do povo palestino.
By Rodrigo Rodrigues

